10 músicas para você cancelar

Você cancela artistas famosos? Você já se perguntou porque hoje em dia parece que tem mais gente cancelando pessoas e que várias coisas que você conhecia deixaram de ser politicamente corretas, como por exemplo, músicas que você gostava de ouvir? Ou será que elas nunca foram politicamente corretas e você não percebia? Neste texto, eu falo sobre tudo isso.

Eu já consumi produtos culturais populares de massa, especialmente músicas que na época pareciam muito legais e engraçadas, mas que hoje em dia me causam muita vergonha.

Eu ainda não me acostumei muito em usar o termo “cancelar”, eu acabo usando mais boicotar. Fica a impressão de que estamos falando de uma pessoa como se fosse um produto e não um ser humano.

Para mim, parece que a diferença entre o ato de boicotar e o ato de cancelar (além do cancelar ser mais voltado para celebridades) é que o primeiro envolve apenas deixar de consumir algo de uma fonte ou deixar de apoiar algo ou alguém, enquanto o segundo envolve isso e também o ato de tornar público que está cancelando, expondo os motivos pelos quais faz isso.

Eu não sou contra a ideia de cancelamento, muito pelo contrário, em certos casos acho mais que necessário. Dou uma ênfase no “alguns casos”, porque acho que nem todos merecem cancelamento.

Músicas para você cancelar?

A ideia de fazer essa lista surgiu de uma discussão sobre a filosofia do cancelamento e uma letra de música bem conhecida nos anos 90.

A discussão é que a música “Nosso sonho” De Claudinho e Buchecha, seria uma forma de apologia à pedofilia, que teria passado bem despercebida até pouco tempo atrás.

Ah, os anos 90 no Brasil – eu fui exposta a tanta coisa que não era apropriada para a minha idade naquela época  mas que parecia normal, que eu acho que daria para escrever um livro inteiro sobre o assunto!

Longe de mim dizer para você o que deve ou não fazer, mas como boa questionadora que sou, gosto de trazer discussões para o mundo e refletir sobre coisas que fazemos no dia a dia e nem percebemos.

Num passado não tão distante, eu já ouvi e me diverti com muitas músicas que hoje me causam constrangimento e me fazem perguntar a mim mesma: como eu pude rir disso um dia? Como eu pude achar isso legal, a ponto de recomendar para amigos?

Então, vamos a uma lista de músicas que eu ouvia e achava legal, mas que hoje em dia eu acho que passam uma mensagem errada, que de alguma forma faz mal às pessoas:

1. Nosso Sonho – Claudinho e Buchecha (Composição: Buchecha / Claudinho)

Os teus cabelos cobriam os lábios teus

Não permitindo encontrar os meus

E você é baixinha. Gatinha, eu vou parar

Mas tudo isso porque eu me sinto coroão

Tu tens apenas metade da minha ilusão

Seus doze aninhos permitem somente um olhar

Acho que a última frase deixa bem claro que é um adulto fantasiando e declarando para uma menina de 12 anos que quer beijar ela na boca e que tem atração sexual por ela. No restante da música ele dá a entender que sabe que é errado e mesmo assim está tentando ficar com ela só esperando uma “chance do destino” para isso. Não tem nem mais o que comentar, né?

Imagem: Adrian Swancar no Unsplash

2. Me Lambe – Raimundos (Composição: Fred / Rodolfo / Digão)

Sinto, amigo, lhe dizer, mas ela é de menor

Isso é crime

Seu guarda, se não fosse eu, podia ser pior

Imagine

Aqui, o cara dá a entender que se não fosse com ele seria com outra pessoa, banalizando o ato e colocando a culpa na menina, tirando a responsabilidade de si mesmo. No resto da música fica implícito a ideia preconceituosa de que mulheres pedem para que certas coisas aconteçam com elas, porque estariam provocando os homens com suas atitudes e roupas. Ridículo.

3. Robocop Gay – Mamonas Assassinas (Composição: Dinho / Júlio Rasec)

Abra sua mente

Gay também é gente

Baiano fala: Oxente

E come vatapá

Aqui é como se dependendo da identidade sexual alguém não pudesse ser considerado uma pessoa que merece respeito ou mesmo considerada uma pessoa. Absurdo.

4. Brincar de Índio – Xuxa (Composição: Michael Sullivan / Paulo Massadas)

Vamos brincar de índio

Mas sem mocinho pra me pegar

Índio fazer barulho

Índio ter seu orgulho

Índio quer apito

Mas também sabe gritar

O que tem de errado com essa? Visão estereotipada e distorcida de indígenas além de deixar subentendido que somente os brancos são corretos e bons, colocando esses de  “mocinhos”.

5. Lourinha Bombril – Os Paralamas do Sucesso (Composição: Bahiano / Diego Blanco / Herbert Vianna.)

Essa crioula tem o olho azul

Essa lourinha tem cabelo bombril

Aquela índia tem sotaque do Sul

A cozinheira tá falando alemão

A princesinha tá falando no pé

A italiana cozinhando o feijão

A americana se encantou com Pelé

Com exceção da expressão (horrível) “cabelo bombril” que é bem na cara, aqui a ideia de outros estereótipos é mais sutil, mas existe. Aqui entra aquela história de algumas pessoas tacharem outras de “exóticas” por raça e traços físicos, principalmente essa última frase aí de cima. 

6. Ajoelha e Chora – Tchê Garotos (Composição: Sandro Coelho / Luiz Claudio / Marquinho Ulian.) 

De hoje em diante sempre que eu te chamar

Acho bom tu ajoelhá e me tratá com respeito

Ajoelha e chora ajoelha e chora

Quanto mais eu passo laço muito mais ela me adora

Me chama de docinho comecei me preocupar

Eu tô achando que esta mulher danada

Ficou mal acostumada e tá gostando de apanhar

Precisa dizer alguma coisa sobre essa? Eu cresci no Rio Grande do Sul e as tradições gaúchas fazem parte da identidade da minha família, mas meu sangue ferve e me enoja lembrar quantas pessoas eu vi cantarem e dançarem (!) ao som dessa música.

Minha expressão de feliciade em lembar dessa letra… só que não. Imagem: InspiredImages no Pixabay

Pedra Letícia: Você talvez conheça eles da TV, eu conheço bem antes disso.Eu ria muito com as letras dessa banda, porque eram muito fiéis à vida cotidiana no Brasil e porque falavam de pessoas que você poderia facilmente encontrar na sua vizinhança ou na sua família. Mas parando para analisar o que eles dizem nas letras abaixo, se trata de músicas muito preconceituosas e que infelizmente e provavelmente falam de coisas ainda normalizadas pela sociedade. ( Ai que agonia!)

7. Teorema de Carlão – Pedra Letícia (Composição: Fabiano Cambota) 

E veja aquela moça

Aquela bem baranga

Ela diz: “pobrema”

Ela tem bigode

E sem falar na pança

Tente entender

Ela quer ser feliz como você

Ela também tem coração

Então faça uma boa ação

Pegue uma baranga

Diga que a ama

Chama pra subir ao altar

E olha bem que você faz

Quando a beija uma vez mais

No céu você guardou seu lugar

Frases gordofóbicas, frases que destroem a auto estima de qualquer mulher, porque estabelecem uma visão objetificada e um padrão errado de beleza. E o pior, dá a entender que nem toda mulher merece ser feliz e viver o amor por causa de sua aparência. (Essa é daquelas que me dá vergonha profunda por já ter ouvido várias vezes)

8. Em plena lua de mel – Pedra Letícia (Composição: Cleide / Cleyton.)

Olha, todo mundo está comentando

O seu cartaz tá aumentando

Moça linda, por favor

Guarde todo esse amor pra um rapaz

Dá vergonha de dizer o que disseram de você

Essa música do Reginaldo Rossi já é toda errada em si por dizer que uma mulher que sai com vários homens é uma mulher mal-falada que não merece respeito. Mas pros homens tudo bem, né? (insira cara de indignação aqui)

Tem mais:

Hama a ma ha de ba una mua ua, Ha de ba una muni I I I

Ha de ba una cali I I I, Ha de ba una rama a a a

Osama Binladen habanma, Al Qaeda, Al Jazeera, Hamaaaz

Isso é uma parte do arranjo feito pela banda, onde eles só usam palavras que falam de terrorismo quando querem fazer zoeira do que seria a versão em árabe, criando um estereótipo de que pessoas que falam árabe são todas terroristas.

9. Resolução – Pedra Letícia (Composição: Fabiano Cambota)

Não quero mais passar medo

Com você na direção

Olha o caminhão!!!

Vou namorar um traveco

Agora a fila andou

Mais uma vez, desmerecendo as mulheres com piadas toscas e ridicularizando travestis, usando a forma pejorativa “traveco”.

10.Camioneta Zera – Pedra Letícia (Composição: Fabiano Cambota)

A moça feia lá da ponte nunca me agradou

Eu gosto é de mulher com cara de atriz pornô

Essa daqui? Porque toda mulher só é bonita e só ganha afeto quando se encaixa num padrão de beleza mulher objeto, e o mais importante mesmo é o sexo. Como se as pessoas de verdade tivessem que ser assim mesmo, né?

Imagem: Andre Hunter no Unsplash

E qual é o problema em rir de certas coisas? 

O meu problema não é com o humor e sim com a forma como fazemos um problema sério parecer bobagem porque ridicularizamos aquilo, transformamos em piada.

O problema existe quando rimos da identidade ou da condição das pessoas, porque isso é muito cruel.

Emprestando aqui a voz da Rita Von Hunty, no vídeo Imagens de Controle, BBB e as Queer: fazer piada é “desmerecer e diminuir pessoas e desrespeitar seu jeito de estar no mundo”, é “desqualificar um discurso via um estereótipo”. 

A minha única preocupação em relação a ideia de cancelamento é que, muitas pessoas também acabam usando como uma ferramenta de discriminação e intolerância gratuitas um recurso que deveria servir de ferramenta de melhoramento da vida em sociedade.

Também é importante lembrar aqui, que enquanto seres humanos, somos um conjunto de comportamentos que aprendemos em sociedade e que esses comportamentos são somados aos comportamentos que surgem da nossa vontade única. 

Sempre podemos identificar o problema e a partir disso, mudar nossa atitude.

Para mim, uma forma de usar o cancelamento de maneira saudável é buscar um equilíbrio. 

Não dá para ignorar um produto cultural com alcance de massa, como as músicas aí de cima,  e seu poder de propagação de desrespeito via estereótipos.

Mas também não precisa usar de cancelamento de forma banal, como se precisasse vigiar cada mínima coisa que certas pessoas fazem. É usar isso com sabedoria também. Do contrário, ficamos bem próximos daquilo ou daqueles que estamos querendo cancelar.

Em alguns casos, é saber reconhecer que a pessoa talvez mereça uma segunda chance se ela reconhecer seus erros,reparar seus erros, se desculpar e mudar o seu comportamento de maneira sólida, não apenas superficialmente, só porque um agente de relações públicas mandou.

E você, já cancelou alguém? Tem alguma opinião sobre o conteúdo deste texto?

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Bruxa Asgard Visualizar tudo →

Atriz, Jornalista, Professora e Tradutora. Bruxa eclética, trabalho com tarot e radiestesia. Podcaster do Bruxas em Dublin e Aquariana.

5 comentários Deixe um comentário

  1. É, também acho que o termo boicotar é bem mais legal que cancelar…….haehahehaeha……….vejo este movimento do passado, das músicas que gostava quando adolescente, a partir do pensamento de que, além de mim, e do mundo, serem completamente diferentes naqueles idos, nós (eu e o mundo) mudamos…………….não vou cancelar o meu passado, nem boicotar, procuro entender…………..nesse sentido, por exemplo, quando era só uma criança de uns 9 anos e escutava a Xuxa cantando Brincar de Índio, não tinha as ferramentas para entender “a visão estereotipada e distorcida de indígenas além de deixar subentendido que somente os brancos são corretos e bons, colocando esses de “mocinhos”…………e o mundo adulto daquele tempo também não tinha (ou não usava) essas ferramentas…………contudo, as adquirimos (e usamos)…………continuar escutando a música e cantar sorrindo não dá mais (me sinto mau, não se enquadra como nostálgico)…………..a questão do cancelamento, ou boicote, para mim, se dá quando o artista não mudou com o mundo, e continua produzindo sua obra carregada dos preconceitos e esteriótipos como se fazia no século XX (alguns vão mais embaixo, ainda estando nos séculos XIX e XVIII)………..ou um novo artista que pensa que desenterrar esse passado lhe trará sucesso……….outro exemplo legal (vindo da literatura) é o livro A carne, Júlio Ribeiro, da segunda metade do século XIX……………propagando um cientificismo biológico moral com relação ao mulher (típico da ciência duvidosa de seu tempo), foi tido como um marco da literatura brasileira, e em algum momento do século XX se percebeu os absurdos que ele propagandeava e hoje esta quase no esquecimento (ainda, às vezes, citado por acadêmicos que estudam o naturalismo no Brasil)……….digo isso para ilustrar que o movimento de cancelamento não é tão novo quanto parece, mas como muita coisa que envolve a arte, ampliou sua dimensão com a Internet………….enfim, me parece que o problema não reside na mudança (nesse caso uma mudança rumo à evolução), mas naqueles que resistem a ela……….ou até mesmo a condenam como uma fraqueza………..cito Tom Sawyer, do Rush (que tem algumas músicas produzidas nas últimas década do século XX bastante questionáveis………mas esse trecho é legal………ahehaehahea)………….”He knows changes aren’t permanent \ But change is” (ele sabe que mudanças não são permanentes \ mas mudar é)……………..me empolguei no tamanho do comentário………..haehahehaeha………….

    Curtido por 1 pessoa

    • Adorei o seu comentário Eder! Concordo com você em várias coisas que disse. Achei muito bons os seus argumentos de não cancelar o passado, porque faz parte de quem você é e que o importante é estarmos abertos as mudanças, para assim conitnuarmos melhorando enquanto seres humanos. Obrigada por contribuir com o debate! Abraços.

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  2. Eu também já me peguei re-ouvindo estas musicas e como eram dotadas de preconceitos e coisas “erradas”. Assisto aquele canal anos 90, no Youtube, onde traz muitas coisas dos anos 90 que tudo era “permitido”, não existia censura e nem bom senso.. Eu particulamente tinha nojo da exploração visual e sexual das mulheres nos programas de TV como o Domingo Legal, Fantasia, etc. Comercial de cerveja então nem se fale … Adorei seu texto! Grande abraço.

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    • É muito doido pensar na quantidade de coisas a que fomos expostas e o tanto que isso era prejudicial para nós enquanto meninas, né Camila?! Eu também sempre achei péssimas essas atrações de TV que você citou, assim como os comerciais de cerveja horrorosos. Uma diferença interessante aqui da Irlanda é que anúncios de cerveja não exploram mulheres. Muito obrigada por colaborar com o debate e obrigada pelo feedback, isso me deixa muito contente! Abraços.

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