Sobre querer desistir

Olhei para o maço de folhas de fotocópia que eu tinha acabado de colocar dentro de um envelope plástico transparente. Não pude deixar de ficar triste e com isso me repreendi…

— Eu deixo ir, eu deixo ir — pensei.

— Só porque estou deixando isto ir agora e estou guardando este material, não quer dizer que estou jogando fora ou que vou perder tudo o que aprendi — eu disse para mim mesma, mentalmente.

O aroma de óleo de canela que queimava no difusor enchia a sala. Apesar de eu já me sentir confortável com o calor do ambiente, gerado pelo aquecedor elétrico, eu me recusava a vestir novamente meu cardigã de lã.

— Que se dane a conta de energia. Estou melancólica e mal-humorada o suficiente hoje, para ficar desconfortável no único lugar fechado que posso frequentar além dos supermercados e farmácias em meio a um isolamento longo demais — pensei.

Olhei o céu azul pela janela da sala/cozinha do meu apertamento de um quarto alugado e continuei sem entender como é possível depois de 10 anos vivendo na Irlanda ainda não ter me acostumado com a imprevisibilidade do clima, já que mais cedo estava bem desagradável para uma manhã de primavera.

Continuei sem entender como ainda é possível esperar por uma coisa que não bate: o clima dentro da minha casa com o clima lá fora. A vontade de sair para dar uma volta, andar um pouco e assim quem sabe colocar as ideias no lugar antes de voltar a trabalhar desapareceu num segundo, quando lembrei da sensação do vento gelado no meu rosto e da “jaqueta de sair na rua” que eu já não aguentava mais nem olhar (imagine vestir!).

— Problemas de primeiro mundo — uma voz interna me disse.

— Está esquecendo que tem tanta gente no mundo, inclusive no Brasil, numa situação bem pior do que a sua e você aí de frescura? — continuou.

Fui até a minha estante e peguei dois cristais pretos, que coloquei sobre o meu espaço de trabalho/ mesa de jantar, na esperança que absorvessem o meu mau-humor e o meu ranço.

Voltei para os papéis que eu estava organizando. Eram as fotocópias dos materiais e dos planos das aulas de inglês que eu nunca dei. 

Lembrei de ter sido a única a fazer as tais fotocópias naquele dia. Todos os meus colegas se perguntavam e debatiam se seriam apenas duas semanas ou não, se o governo estava certo em dar tanta importância àquele novo vírus ou se seria exagero.

Eu, como sempre, preferi deixar as coisas preparadas para quando as escola reabrisse, assim não precisaria ficar lembrando o que tinha que ser feito, não precisaria disputar as copiadoras, não precisaria chegar tão mais cedo no primeiro dia de volta e poderia preparar as aulas no meu tempo.

Mas esse dia não chegou. Antes mesmo que a escola reabrisse para que os poucos funcionários de longa data continuassem com aulas totalmente online, recebi uma ligação do meu chefe, que não conseguia disfarçar o pesar de sua voz ao me dizer que assim como vários dos meus colegas, eles não podiam me manter empregada.

Olhei para os papéis novamente. Tentei entender porque quase um ano depois daquela ligação, que só confirmou um palpite que eu já tinha, eu ainda me sentia triste.

Precisei me lembrar mais uma vez, repetindo o que já havia feito em tantas outras ocasiões, de que eu jamais perderia aquilo, de que o conhecimento e a experiência que eu adquiri jamais seriam desperdiçados ou iriam desaparecer.

E que no futuro eu poderia voltar para aquilo tudo se eu quisesse.

Fiz um esforço para me lembrar das novas escolhas que eu tinha feito, do caminho novo que eu estava abraçando e os motivos que me levaram àquilo. 

Também fiz um esforço para me lembrar que em certos caminhos novos as coisas levam tempo e que além disso eu estava respeitando meu próprio tempo desta vez.

Mas apesar do esforço eu ainda não conseguia entender como era possível eu continuar triste por não ser mais uma professora de uma escola de  inglês, apesar de claramente lembrar de todo o stress e de todas as dificuldades que eu estava enfrentando por ser nova naquela carreira, antes da pandemia mudar o meu destino.

Então eu lembrei dos novos projetos que eu estava gerindo. Lembrei que são coisas que dependem muito mais de mim para acontecerem do que se eu estivesse seguindo ordens em troca de um salário.

Lembrei do quanto isso me deixa ansiosa às vezes e o quanto a ansiedade diante deste tipo de situação já faz parte da minha vida. O quanto atrapalha meu fluxo criativo que é mais facilmente deixado de lado quando existe alguém me dando a maioria das instruções sobre o que fazer, do que eu mesma ter que dar conta disso.

E mais importante ainda: lembrei que eu vinha de uns dias bons e simplesmente tinha acordado tendo um dia ruim, sem explicação ou fundamento, além de a ansiedade ter batido do nada.

E foi aí que eu percebi que provavelmente estava caindo num hábito que venho trabalhando para mudar. 

Uma amiga psicóloga me disse que sempre que eu falava desses momentos, ela lembrava de uma paciente, que se auto-sabotava quando estava quase virando o jogo a seu favor em várias situações ou toda vez que estava perto de atingir um objetivo.

Ela dizia para essa moça ficar atenta, para quando percebesse isso acontecendo dizer para si mesma que, se tinha sentimentos de auto sabotagem era porque estava no caminho certo e deveria estar perto de realizar algo importante.

Guardei os papéis num dos meus fichários de aula. Disse para mim mesma mais uma vez que meu tempo sendo professora de inglês não tinha sido perdido apenas porque eu resolvi tentar um novo caminho em relação ao trabalho, mesmo que isso significasse levar mais tempo para ver os resultados.

Uma voz interna me disse para não desistir, afinal, se eu estava pensando em abandonar o novo caminho, era sinal de que eu estava chegando lá.

Sentei em frente ao laptop e comecei a escrever… 

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Bruxa Asgard Visualizar tudo →

Atriz, Jornalista, Professora e Tradutora. Bruxa eclética, trabalho com tarot e radiestesia. Podcaster do Bruxas em Dublin e Aquariana.

1 comentário Deixe um comentário

  1. Acho que sempre rola ansiedade quando tentamos coisas novas porque é o desconhecido e tudo que é desconhecido nos deixa inseguras.

    Começar algo nunca é fácil mas quando você perservera, se agradece depois por não ter desistido.

    Dias em que queremos desistir de muitas coisas sempre virão mas temos que lembrar da razão de começar.

    Você é uma escritora incrível! Keep swimming…afogue seu inner saboteur em kindness e self compassion 💜

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